levanta

tem momentos da vida em que a gente prende fôlego como se o que tivesse guardado fosse doer expirar; quem deixa de perceber nessas introspecções um chance de crescimento, perde também significado de cada agulha que arranha pra não ficar. não é todo dia que fica tudo bem pra respirar. as vezes não concordamos com gelo seco, química, com o que for de sujo que inevitavelmente estamos mergulhados. e nem por isso. nem por isso é possível deixar de sentir ou evitar. já que é sem razão não querer dar sentido aos passos que decidimos tomar. é sem razão também lamentar coisas que poderiam ter sido. não dá. a gente abre mão de um monte de caminhos e escolhe por prioridades de momento ou sentimento tomar outros. daí ficar pensando que poderia, deveria, se fosse assim, etc. não há nada mais frustrante. e aí vem a culpabilização dessas agulhas que fincam, muitas vezes covardes ou cegas ao que já ta aberto e não cabe mais furar, vem um turbilhão de momentos que machucam de verdade e decidimos razoar o que teria sido se fosse outra a história há um tanto de escolhas muito passadas. não dá. não dá pra lamentar isso porque com toda certeza, esse derrotismo traz mais um tanto de frustração pra o que há de vir depois, e depois, e depois. tá doendo? ok. pode ir fundo com tudo isso, mas tira lição do que for de mal-me-quer e caminha. não fica beirando desespero e perdendo detalhes porque aí sim, vai ser mais complicado depois.

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Cuidado

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ilustração feita por mim 🙂

Posso ter pés descalços, mãos  frias, mas internamente meu sangue ferve. Minhas pupilas já não ficam mais retraídas se preciso pensar no segundo seguinte com um tanto  mais de intensidade que no anterior. Todo ar que entra em meus pulmões tem um tanto de dor, um não-sei-o-quê de abrupto que me coloca em chamas. Acordar com olhos ardendo as vezes é estranho, mas se se torna contínuo, pensar sem azáfama é impossível. Não torna mais leve os ombros se o mundo que criei internamente me amarrota por rodar dentro do peito num ir e vir tantas vezes lento e tantas vezes acelerado…! Ai! Dói ser inevitável qualquer reflexão e chega a arranhar em vários momentos em lugares que não sabia sentir dor. Mas tão estranho, faz-me cócegas e ora não sei a quê devo meu riso por bizarro que passa a ser. Explodem em mim flocos de neve que não tem  mais a delicadeza de devaneios infantis, mas tocam a pele nua sem qualquer cuidado. Cuidado. Cuidado esse que cicatrizes passam a ter quando a pele se constrói, refaz, descama, reconstrói e se faz fina umas vezes e outras inexorável. A doçura das palavras, ou a sutileza do sentimento não tornam menor ou menos necessária a dor de crescer. De ser, ser mais um pouco em muito do que era e deixar de lado um tanto do que poderia ter sido. Não existe pedra que fique bela por inércia e igualmente não há coração que se torne mais sincero se se aquieta. Inevitável ainda assim agradecer.

Amadurecer

 

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Rachel Neville Photographer

Em meio a muitas idas e vindas de névoa e insensatez nós nos tornamos mais humanos. Se for pra tocar o chão, se for pra arranhar ou deixar impressões soltas como fumaça que o vento esvai, que seja. Mas antes de tudo, antes de qualquer impressão, se nossos olhos estiverem fechados, que todos nossos outros sentidos tomem nossos corpos. O frio que trespassa já não provoca dor ou faz arder o mínimo de pele, antes porém, cria resiliência; Essa cicatriz que imprime a falta mas que invade toda a respiração com bálsamo que desfaz cristais de sabe-se lá o quê, que pararam antes que a palavra dita houvesse seguido caminho pela garganta. Já tem pontos novos em cada pedacinho meu e já sinto que outra metamorfose – abrupta, necessária- deu início há algum tempo. Não é pela incandescência que sinto meu peito, não foi por farfalhar de asas que meu estômago parou. Eu me sinto e sinto que há em cada instante ruim, um tanto de cura, uma potência infinitamente mágica que me enche em alvorada luminescente de crescimento.

 

Lírio

Tem dias que o céu tá cinza e posto a descer sobre nós porque parece que internamente estamos de igual forma, e que o Senhor compreende nossa necessidade de companhia. Não  nos digo desequilibrados. Mas precisamos desaguar. Tem um monte de afluentes que não  seguem o curso pra lugar nenhum e que se estancam em poças. Isso é o que- livrai-me desse rótulo, senhor!- pessoas normais chamam de tristeza. Nem toda tristeza é ruim, aliás. Muitas são sopros de reflexões absurdas e que nos fazem recorrer a alguns pedacinhos escondidos nossos , partezinhas que precisam realmente serem pinçadas para virem à tona.

Depois de muito tempo a gente descobre que tem coisas que ainda doem se reviradas, mas que precisam ser sentidas pra não entulhar mal-me-quer em nossos peitos. E quem me quer mal? Se não somos nós que escolhemos e nos responsabilizamos por nossas cargas afetivas, quem me nos faz mal?

Não que seja ruim ou bom. Mas pensar e colocar esses espelhos refletindo o que conseguimos até agora é dolorido. E, olha… Não é fácil querer olhar o que realmente dói ou o que faz pesar aqui, onde os outros não veem mas julgam ( julgo por me julgarem?).

Crescer é quando a gente despenca de uma árvore em que parecem só morarem seres brilhantes e cai na lama de um monte de expectativas e frustrações que respiramos esperançosos que nossos alvéolos não retivessem coisa alguma… Tontos, esquivamos de nossa expiração. E dói expulsar o que tava machucando.

Mas o lírio nasce aí; no que aduba o belo.

 

Medo

tumblr_static_4wg70s6vawis4skgw0occ4sgg (1)Medo parece um fantasma que fica que rondando a mesma rua por onde nossas memórias gangorram e desfilam inquietas. Sussurra incompreensíveis reticências e abraça o coração como se fosse apertá-lo de forma ilimitável numa força que é tão proporcional ao receio que chega mesmo a sangrar. Já viu um abraço desses? Um sufoco mais ou menos sem nome, mais ou menos sem espaço mas que ocupa você inteirinho? E parece que vem dias em que esse fantasma – o medo – decide brincar de gato e rato. Se faz ora pulso, ora espada, ora silêncio. Shhhh! Se me arrasto fingindo inexistência, mais ele sabe da tábua que estala ou da menor gota que escorre. E sabe de mim. Sabe que não quero senti-lo e gargalha, rodopia, dança por sobre minha ingenuidade. Tem momentos que parece ser brando. Que lança mão de uma piedade abrupta e esvai. Fica uma impressão sem nome, um desfecho de passos marcados e cheiros significativos. De linhas que arranham e provocam calafrios. Sente! Vibra em mim uma instabilidade do que sinto mas que não passa de impressão. Já não mais é espinho ou pétala que posso tocar. Mas fica um não-sei-exatamente-o-quê, um raminho de sementes miúdas que vão embora ao menor sopro. Pronto… Agora é pólen, agora se faz em mim tão grande, tão forte que é parte do que me ajuda a ser o que sinto. Vem e beija minha testa em respeito, o fantasma que passa por máscaras e acaba por ser amigo. E infunde paz. Respiro e, mesmo em vias de perder o instante, sou muito mais intensa do que ousaria ser. Medo é quando um fantasma que parece vir pra trazer unicamente dor, te traz em valsa, um baile inteirinho de possibilidades deixando não apenas o êxtase, mas além, a gratidão.

 

abrilhantar

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vamos abrilhantar nossos dias, gente. vamos muito sair desse proselitismo de falar que Natal é mimimi que não dá dia x ou y pra ser feliz ou um pouco mais leve. vamos sair dessa roda gigante de comodismos e inércia de discursos. sair dessas viradas de curvas que já ficaram foscas e tanto repetir. nós não precisamos cultuar tristeza, embelezar palavras sem sentido se a gente sabe que qualquer sentimento só toma forma se vai no forno e só fica bom se for com temperinhos. tá cheio de gente fechando a concha do ‘isso não diz respeito a mim’ e esquecendo que somos absolutamente ligados uns aos feitos dos outros. vamos inovar um tanto nossos campos de arado e plantar mais amor, pois que , mire! tem sofrimento demais nessa vida pra querer que os dias permaneçam cinzentos ou que as pessoas fiquem demais infelizes além do que já lhes é carga aos ombros. nós somos sentimentos avassaladores e somos bem mais do que acreditamos que podemos ser. se lá nos escritos sagrados há ‘vós sois deuses’ dito por um santíssimo nazareno, vamos ser virtude e mágica porque o mundo tá precisando de colo e afago. respira fundo e bora pro trabalho porque há muita semente de flor e fruto pra distribuir em cada coração.

Aurora

tumblr_n1rpth5Cp11sar3mlo1_500o dia está aos poucos, de fazendo em raios de espectros que não chegam à serem por nós tão vistos, mas que são, em cada mínima gota de orvalho refratados, refletidos. dali, de onde aqueles seres pequeninos trabalham sua lavoura, dali, de onde os vermes trazem oxigênio e nutriente ao solo, existem outras vidas num desabrochar abrupto e que quase num desvairado desejo por luz se jogam pra cima, bem além. São tão sementes ainda, tão pouco árvores, mas não tanto latentes do que quanto foram abraçadas pelo torrão… tem uns outros detalhes que nos escapam em cantos miúdos, em notas inaudíveis de acalanto perfeito aos seres invisíveis que por graça já iniciaram seu bailado. a vida não dorme mais… ” bem vinda, aurora!”
gabriela.

ao acaso

large (2)independente do que nós queremos ou almejamos sobremaneira, a vida tem seus milhões de outros caminhos pra chegarmos em objetivos nem sempre iguaizinhos ao que planejamos a princípio. não é ruim de todo. pode ser assustador em diversos momentos e estranho seria se não te levasse a empalidecer ou ficar rubro por tantas causas e/ou consequências. o que importa? se isso tudo passa e fica mesmo um monte de sentimentos que vão moldando muito do que nossa maturidade nos permite ser… para além de qualquer ideia do que deveria ou do que é possível que seja, muito antes de expectativas serem formuladas, existem um sem número de vais e vens absolutamente o acaso. nisso tem um certo e inegável brilho. uma mágica de desconexões, de multiplicidades, de falta de eixos. pra quê eles, afinal? em corda bamba, pra quê? se as cordas se cruzam, se desmancham, se fazem pó ou se cristalizam; há tanto não sei e poderia ter sido que não muda nada. mas que muito mais do que isso tudo, faz com que sejamos um pouco mais sensatos, um tanto mais intensos com o que pulsa em cada ato nos dias que se seguem.

Pó de estrela

Em absoluto, se cerro meus olhos a única certeza que consigo por milésimos abstrair é de que permaneço. Diante de fagulhas de um nunca mais a que o tempo me sentencia, todo e qualquer segundo meu passa como brisa que não é mais e que -igual pra todo mundo- foi soprado daqui. Memória não conta se o pó, por mais mágico e delicado, se a pluma por levíssima e em cócegas esvai. Por ousadia ou desespero em sussurros dedilho minhas escolhas e, antes que eu me arrependa, caio num buraco de efeitos que não consigo prever. Por mais doce a fragrância, ela vai embora e não fico senão com impressão. Vai passar, vai passar, vai passar a dor, o medo já foi embora, não há mais temor aqui, a angústia mudou de lugar e de nome. E ainda permaneço. Se abro os olhos, se me desfaço, se sou trêmula ou se sou triste. Não importa. Qualquer mínimo já desvia minha atenção ou desfoca meus sentimentos. Olha! Vê? Sou quase infinito e não sou nada. Sou pó de estrela de reluzir etéreo e sou areia fosca que vai do nada a lugar nenhum. Sou espuma?  Sou areia? Sou estrela? Sou sonho? Permaneço.

essência

1526980_599326530121975_1072055568_nessência é uma das maiores preciosidades de cada um. por mais que eu ou você venhamos a vivenciar múltiplas situações que nos preencham em escolhas diversas, no fim, é cada um de frente as suas consequências. ninguém sente por ninguém, ninguém vive por ninguém. você pode sofrer com alguém mas nunca sabe de que forma os sentimentos passam dentro dos outros. é estranhíssimo pensar no quanto somos estrangeiros em todos os lugares. somos sim, um faiscar de efeitos que afetam circunstâncias com as quais nem mesmo chegamos a ter ciência. pensar isso me deixa um pouquinho ansiosa. porque, por melhores que sejam as intenções, nem sempre uma fala ou ação agem como nós sentimos bem no fundinho de nosso ser. muitas das vezes, aliás, tomam conotações até mesmo inesperadas. e olha, mas não é isso que você entendeu, não modifica a primeira impressão…

essência. lá no fundo, bem debaixo de qualquer lodo, lama, lagrima. muito depois de todas as palavras malditas, sentidas, eu sei, existe uma perolazinha quieta que é além de tudo o que passa ser. muito além dessa camada de expectativas que os outros criam em cima de nós, muito além das máscaras que usamos para que se importem conosco. tola infantilidade, tola miséria nossa de ser o que não somos e sofrer por não ser o que realmente cada um de nós é…

fiquem bem,

gabriela