Cuidado

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ilustração feita por mim 🙂

Posso ter pés descalços, mãos  frias, mas internamente meu sangue ferve. Minhas pupilas já não ficam mais retraídas se preciso pensar no segundo seguinte com um tanto  mais de intensidade que no anterior. Todo ar que entra em meus pulmões tem um tanto de dor, um não-sei-o-quê de abrupto que me coloca em chamas. Acordar com olhos ardendo as vezes é estranho, mas se se torna contínuo, pensar sem azáfama é impossível. Não torna mais leve os ombros se o mundo que criei internamente me amarrota por rodar dentro do peito num ir e vir tantas vezes lento e tantas vezes acelerado…! Ai! Dói ser inevitável qualquer reflexão e chega a arranhar em vários momentos em lugares que não sabia sentir dor. Mas tão estranho, faz-me cócegas e ora não sei a quê devo meu riso por bizarro que passa a ser. Explodem em mim flocos de neve que não tem  mais a delicadeza de devaneios infantis, mas tocam a pele nua sem qualquer cuidado. Cuidado. Cuidado esse que cicatrizes passam a ter quando a pele se constrói, refaz, descama, reconstrói e se faz fina umas vezes e outras inexorável. A doçura das palavras, ou a sutileza do sentimento não tornam menor ou menos necessária a dor de crescer. De ser, ser mais um pouco em muito do que era e deixar de lado um tanto do que poderia ter sido. Não existe pedra que fique bela por inércia e igualmente não há coração que se torne mais sincero se se aquieta. Inevitável ainda assim agradecer.

Amadurecer

 

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Rachel Neville Photographer

Em meio a muitas idas e vindas de névoa e insensatez nós nos tornamos mais humanos. Se for pra tocar o chão, se for pra arranhar ou deixar impressões soltas como fumaça que o vento esvai, que seja. Mas antes de tudo, antes de qualquer impressão, se nossos olhos estiverem fechados, que todos nossos outros sentidos tomem nossos corpos. O frio que trespassa já não provoca dor ou faz arder o mínimo de pele, antes porém, cria resiliência; Essa cicatriz que imprime a falta mas que invade toda a respiração com bálsamo que desfaz cristais de sabe-se lá o quê, que pararam antes que a palavra dita houvesse seguido caminho pela garganta. Já tem pontos novos em cada pedacinho meu e já sinto que outra metamorfose – abrupta, necessária- deu início há algum tempo. Não é pela incandescência que sinto meu peito, não foi por farfalhar de asas que meu estômago parou. Eu me sinto e sinto que há em cada instante ruim, um tanto de cura, uma potência infinitamente mágica que me enche em alvorada luminescente de crescimento.